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Natal – maio de 1930

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, Escritor, Presidente da Fundação Amigos da Ribeira

elisio@mercomix.com.br

 

 

Em maio de 1930, Natal ainda era uma cidade pequena de braços acolhedores e fortes, em que todos se conheciam e se cumprimentavam nas ruas.

No ano anterior, a cidade ganhara o Plano Palumbo, oficialmente conhecido como Plano Geral de Sistematização de Natal, criado pelo arquiteto Giácomo Palumbo. O prefeito em exercício era o Dr. Omar O’Grady (gestão de 1924-1930), que trabalhara para completar a abertura da Avenida Sachet (atual Duque de Caxias).

O modernismo de 1922 ainda não chegara a Natal, mas a sua influência já se fazia sentir.

Às 18:00 horas, os badalos do sino da Igreja do Bom Jesus chamavam os fiéis para as orações. Os homens de terno branco e as senhoras de vestido longo chegavam para a missa do final da tarde. A igreja lotava, pouco a pouco.

Dezenas de ave-marias e pais-nossos eram rezados durante a missa, no cumprimento das sentenças após as confissões. Ao término da missa, os fiéis reuniam-se, em meio aos cânticos litúrgicos.

Naquele mês, no dia primeiro, fora inaugurada pela Cia. Aeronáutica Brasileira a rota aérea Natal – Recife, recebida com entusiasmo pela população.

O comércio principal da cidade se situava na Ribeira, ainda em meio a várias residências. Na Rua Dr. Barata se situavam a loja de calçados do Sr. Francisco Correia de Andrade, as livrarias do Sr. Walter Pereira e a do Sr. Santana, e a ferragem Limarujo. Mais a frente, localizavam-se a Joalheria Farache e o estúdio do fotógrafo João Alves.

De lá se avistava a Avenida Tavares de Lira, onde aportavam no cais os botes e barcos de pesca. No Café Cova da Onça reuniam-se políticos, comerciantes, funcionários públicos, e se conversava de tudo.

A Rua Dr. Barata era muito frequentada pelos mascates, que a percorriam com suas malas sortidas de amostras, ávidos para fazer negócio com os comerciantes locais. Os ambulantes circulavam pelo bairro: o afiador de tesouras e facas, os vendedores de frutas, aves, peixes, cuscuz, cocadas e refrescos.

Os senhores com os cabelos brilhantinados, calças vincadas e sileques bem passados de colarinhos duros mostravam a elegância da época.

O footing dos jovens era realizado nos sábados à tarde na Rua Dr. Barata, onde caminhavam, olhavam vitrines, conversavam e flertavam. Namorar àquela época era coisa difícil, precisava de muita paciência e pertinácia. Tudo começava com um flerte no bonde, nas festas, no Polytheama. O namoro já era coisa séria... quase um comprometimento.

À noite, depois das 21 horas, quando as famílias se recolhiam, a Ribeira apresentava tipos singulares: prostitutas, cáftens e gigolôs. Circulavam pelas imediações da Rua Almino Afonso e muito bem vigiados pela polícia. Não era permitido nada que incomodasse as famílias que residiam próximas.

Qualquer fato ocorrido na madrugada era noticiado na folha dos jornais ou, quando não, comentado na boca do povo. O majestoso prédio da Junta Comercial do Estado foi inaugurado no dia 31 de março, sob as bênçãos do bispo de Natal, Dom Marcolino Dantas.

No ano anterior, 1929, o Brasil importara 51.650 automóveis, dos quais pouquíssimos vieram para o nosso Estado. O bonde elétrico ainda supria as necessidades de locomoção dos habitantes da capital potiguar.

Naquele ano, no dia 13 de maio, o piloto Jean Mermoz fez a sua primeira travessia de São Luís do Senegal para Natal, em um Laté-28 com flutuadores da “Cia. Générale Aéropostale”.

No dia 23 de maio desse ano ocorreu o primeiro desastre fatal no Aero Clube, em que a cidade ficou consternada com a morte do jovem piloto Edgar Dantas.

No dia 28 de maio, o Graf Zeppelin sobrevoou Natal pela primeira vez. Era uma hora e cinquenta e seis minutos da tarde quando o avistaram sobre a cidade. Assim que chegou um Laté-25 passou a acompanhá-lo durante as manobras que efetuou. Na Ribeira, o dirigível lançou um ramalhete de flores naturais sobre a estátua de Augusto Severo, com a segunda inscrição: “Homenagem da Alemanha ao Brasil na pessoa do seu grande filho Augusto Severo”. O ramalhete caiu na residência da Sra. Inês Barreto, atual Colégio Salesiano, e em seguida foi encaminhado por populares até a estátua.

Nossa cidade, desde a sua fundação, desperta um sentimento místico de fé, e a tarefa de trazer as lembranças da Ribeira sonda os véus do tempo e emaranha o doce caminho do passado.

 

 

 

 

 

 

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