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Um pianista de Paris

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, Escritor, Presidente da Fundação Amigos da Ribeira

elisio@mercomix.com.br

 

 

 

1914, o verão chegara mais cedo aquele ano e Paris estava terrivelmente quente. As calçadas dos estabelecimentos do Quartier Latin fervilhavam de gente até altas horas da noite, pois os terraços dos cafés e brasseries eram os refúgios comuns para aplacar o calor.

Naquele final do mês de julho só voltávamos para nosso pequeno apartamento bem tarde, pois era bem mais refrescante ficarmos conversando nos grupos que costumavam se reunir nos bulevares.

Minha vida estava tomando um novo rumo, pois partira para uma nova carreira, como escritor freelancer – que me parecia bem mais promissor!

O café que eu mais frequentava no Quartier Latin era bem antigo, e sua fachada tinha o charme do século XIX, com as portas de madeira estreitas e pintadas de azul-royal. Normalmente, eu chegava lá por volta das oito horas da noite, e ficava saboreando uma cerveja bem gelada, em meio a um papo gostoso com amigos franceses, a maioria jornalistas, como eu.

A ruazinha onde ficava o café era estreita e afastada do movimento, o que nos dava a sensação de aproveitar a calma que envolvia Paris durante as noites de verão das “décadas gloriosas”. Próximo ficava uma pequena padaria, o que nos permitia sentir o cheiro de pão recém-saído do forno.

Todas as noites, ao chegar ao café, era recebido pelo proprietário Pierre, que me cumprimentava efusivamente como se já soubesse da minha visita: Entrez! Entrez, monsieur!

Ele aparentava uns 60 anos, de constituição física robusta, com os cabelos grisalhos e o maxilar imponente. Parecia que vivia a sorrir, mas com o tempo percebi que a expressão de sorriso era apenas o seu rosto em repouso, que assim permanecia inalterável diante de qualquer situação.

Pierre sempre se dirigia à mesa onde eu me sentava e apertávamos as mãos, o que é quase obrigatório na França, em qualquer relação com outra pessoa. Logo em seguida, automaticamente, o garçom já me trazia uma cerveja estupidamente gelada – a primeira da noite!

Nos fundos do salão, ficava um belo piano “Pleyel” francês, do início do século XIX – a marca preferida de Chopin. O instrumento, com gabinete de nogueira e linhas elegantes em estilo art nouveau, todos os dias, às 22 horas, era ocupado por um pianista que tocava para os clientes da casa.

No início do século XX o piano estava em alta – em 1910, no ano das grandes cheias do rio Sena, havia cerca de trezentos fabricantes desse instrumento apenas nos Estados Unidos – contudo, com o tempo, o rádio, o cinema e a televisão tomariam o seu lugar.

Naquela noite, no horário de sempre, o pianista chegou. Chamava-se Flaumer, era um homem alto e esguio. Os traços do seu rosto eram retos, quase austeros. Tinha uma longa e bem-cuidada cabeleira negra e usava óculos de grau. Dirigiu-se ao piano, cujo tampo já estava aberto. Parou por alguns instantes e, em seguida, suas mãos pousaram no teclado. Suas costas muito retas davam-lhe um porte solene, e ele movimentava os braços com fluidez e precisão, deixando as mãos deslizarem sobre o marfim das teclas.

Uma sonata de Bach encheu o salão com a suave melodia, o que fez todas as conversas cessarem de imediato. Todos os olhares se voltaram para o pianista.

À medida que seus dedos ágeis deslizavam sobre o teclado, as notas ecoavam pelo salão e a música transformava completamente o estado de espírito das pessoas. O som era, ao mesmo tempo, claro e robusto. Aos poucos, as melodias foram se sucedendo: Schubert, Mozart, Beethoven...

Eu apenas ouvia, em silêncio. Não imaginaria que, logo no dia 2 do mês seguinte, Paris estaria coberta por cartazes tricolores que anunciavam a mobilização geral para a guerra.

 

 

 

Talco Ross

 

 

 

 

 



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