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A Praia de Ponta Negra – Década de 1970

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, Escritor, Presidente da Fundação Amigos da Ribeira

elisio@mercomix.com.br

 

 

 

Durante a conquista do Rio Grande do Norte pelos invasores holandeses no século XVII, em 1633, o nome de Ponta Negra já aparecia nos relatos históricos. Segundo pesquisa realizada pela antropóloga norte-americana Lois Martin Garda, em 1980-1982, os habitantes de Ponta Negra descendem de três ou quatro famílias procedentes de São José de Mipibu, Bonfim, Pirangi e Nísia Floresta. Outras famílias também chegaram à praia fugindo da grande seca de 1877/ 1879, que atingiu o nordeste brasileiro.

Inicialmente, esses primeiros habitantes praticavam agricultura numa área de cerca de 500 hectares entre o Jiqui e a estrada principal da Barreira do Inferno que pertencia à vila.

Em 1920, a Vila de Ponta Negra tinha cerca de 500 habitantes – três anos depois, o presidente da Intendência Municipal, farmacêutico Joaquim Torres, abriu uma estrada de barro ligando a Natal, e que seria refeita em 1936.

Até então, Ponta Negra era um lugar pequeno, calmo e de acesso restrito – a estrada estreita não comportava dois veículos em sentidos opostos. A partir da década de 1950, mesmo com a dificuldade de acesso, surgiram os primeiros veranistas, ainda em casas de taipa.

Em 1957, na administração Djalma Maranhão, finalmente chegou luz elétrica à vila, para substituir a antiga iluminação feita a lampião.

A estrada pavimentada a paralelepípedos foi inaugurada em 1960 pelo Dr. Roberto Freire, então Secretário de Obras do governo Dinarte Mariz (1956-1961) – vale salientar que Dr. Roberto era um defensor da Vila de Ponta Negra e foi dos primeiros veranistas.

O abastecimento d’água na casas de veraneio era feito pelos poços e cacimbas existentes – um dos poços mais conhecidos ficava na ladeira que dava acesso à vila. O transporte era feito por nativos com galões nas costas ou nos barris de cumaru nos lombos dos animais.

A partir da década de 1970 começam a surgir as primeiras casas de veraneio, embora a tranquilidade da praia ainda se mantivesse sob o domínio do Morro do Careca, que não era tão “careca” como hoje.

Em 29 de outubro de 1970, a Arquidiocese de Natal inaugurou a Casa de Hóspedes de Ponta Negra. Em 30 de outubro do mesmo ano foi inaugurado o balneário do Sesc, que na solenidade inaugurativa exibiu a taça “Jules Rimet”. Em meados da década de 1970 foi feito o alargamento da estrada de Ponta Negra.

A minha convivência com a praia de Ponta Negra foi a partir desse ano, nos períodos de férias escolares.

Naquela época, os veranistas compravam peixe fresco diretamente das mãos dos pescadores – barato e grande variedade.

Os meninos desciam o Morro do Careca em tábuas polidas com vela ou parafina para deslizar na areia. Subir o morro era uma tarefa árdua, mas a descida duna abaixo compensava todo o esforço. Próximo ao Morro do Careca ficava o “pocinho”, onde o banho seguro era a diversão da meninada.

Na praia ancoravam inúmeras jangadas de troncos dos pescadores nativos. Às tardinhas assistíamos na beira da praia as pescarias de rede que traziam peixe em abundância. Quando os pescadores puxavam a rede de arrastão, os veranistas chegavam para comprar peixes e os meninos se divertiam procurando peixinhos, estrelas-do-mar...

Também era comum avistarmos os grandes cardumes e tainhas bem próximos da praia – e ali, sem trânsito de veículos (exceção para alguns veranistas de jeep willys), as crianças se divertiam fazendo castelos de areia e tomando banho de pocinho.

Na beira-mar os vendedores ambulantes vendiam sorvetes, picolés Big Milk e água de coco. Os piqueniques, à tardinha, na Praia de Alagamar, por trás do Morro do Careca, ainda deixam saudades à nossa geração.

E nas tardes (vocês lembram?!) a areia fria da praia atraía os veranistas para passear à beira-mar ou tomarem banho nas águas mornas – alguns ficavam de dedos roxos e engelhados, batendo o queixo de frio, e olhando para o mar na esperança de verem algum golfinho.

 

 

 

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