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Recordações de Natal em 1960

Elísio Augusto de Medeiros e Silva

Empresário, Escritor, Presidente da Fundação Amigos da Ribeira

elisio@mercomix.com.br

 

 

Essas tentativas de recordações levam-me a uma Natal quase provinciana do início dos anos 60. Num exercício de memória, tento recordar alguns fatos e costumes que presenciei, como reprisando um velho filme.

Àquela época, Natal contava com poucos bairros: Ribeira, Rocas, Cidade Alta, Petrópolis, Tirol, Alecrim, Mãe Luísa, Quintas e Redinha. Nas ruas os garrafeiros, verdureiros e soldadores de alumínio misturavam-se aos vendedores de cuscuz, cavaco-chinês, gelé e pirulito de tabuleiro.

Os meninos brincavam de tica, bola, polícia e ladrão, e esconde-esconde. Andávamos de patinetes da “Bandeirante”, carrinhos de rolimã, soltávamos corujas e jogávamos bola e futebol de salão.

Na Praça Pedro Velho, onde eu costumava andar de bicicleta, os lacerdinhas caíam nos olhos e ardiam pra valer! Quem é da época se lembra!

A Cidade se estendia somente até a “Corrente”, na “Quinze”, lugarejo construído na pista de Parnamirim pelos americanos, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nas ruas, ao lado dos papa-filas enormes da Base Aérea, circulavam os primeiros automóveis nacionais (Simca, DKW, Aero-Willys, Dauphine, Jeep), junto aos carrões importados pós-guerra.

Eu morava em Petrópolis, ao lado da Maternidade Januário Cicco, e estudava à tarde no Ginásio 7 de Setembro, na Rua Seridó, cujo diretor era o Sr. Oscar Nogueira, tendo o Sr. Geraldo como o dono da cantina, e Cristalino que treinava os alunos na prática do basquete, tudo dentro do Colégio. Pela manhã, fazia aula de inglês no Scbeu, Sociedade Cultural Brasil - Estados Unidos.

Nos rádios valvulados tocava: “A taça de ouro é nossa, com os brasileiros não há quem possa!”, em alusão à Copa do Mundo de 1958. Lembro-me dos ônibus que faziam a linha de Petrópolis e tinham o seu terminal na Rua Dois de Novembro, pertencentes a uma empresa pequena, de propriedade de “João Lourenço”, cuja frota era composta de três ou quatro Chevrolets “bicuda”.

Naqueles tempos surgiu o Postafen, um produto novo que prometia às moças o que hoje elas têm em “abundância”.

Recordo-me de uma pequena mercearia na esquina da Travessa Guaratuba/ Manoel Dantas: na frente, três portas de madeira que passavam o dia abertas, e à noite eram fechadas com duas travas de madeira e ferrolhos por dentro, cujos proprietários moravam ao lado.

As compras maiores geralmente eram feitas na Cobal, na Subsistência do Exército, na Cantina Letière, no Armazém Chaves, ou no velho mercado da Cidade Alta; porém, nas mercearias, substituídas pelas “lojas de conveniência atuais”, eram feitas as compras emergenciais das residências.

Ao entrar na pequena mercearia, víamos, num canto do balcão, uma pilha de papel de embrulho, com um peso de balança em cima. Ao fundo, em uma das prateleiras, ficava o encanto da garotada: Balas Gasosas, Chiquita Bacana, São João, drops, torrones, chocolates Leite Mel, Pirulitos Zorro, etc.

No chão, os sacos de estopa arregaçados de açúcar, milho, feijão, arroz, farinha de mandioca, e as indispensáveis conchas de flandres. Encostada à parede, uma geladeira a querosene, “Frigidaire”, com as prateleiras cheias dos refrigerantes: Guaraná Dore, Rocha, Jade, Crush, Fratelli Vita, e de garrafas de cervejas dos cascos claro e escuro. No refrigerador, os saquinhos de din-din, que faziam a festa das crianças, dos adultos e dos idosos também.

No canto da mercearia, umas cordas penduradas exibiam fumo de rolo, cebolas, tranças de alho, pencas de banana-anã e candeeiros de lata, com pavios de algodão torcido.

Num local mais discreto, garrafas de cachaça e copos, quase cativos, dos papudinhos. Também expostos os cigarros: Astória, Continental, Minister, Hollywood, Gaivota, que também eram vendidos em retalho.

Sob o balcão, um expositor de vidro e madeira, com pão doce, francês e carteira, ao lado de cocorotes e tarecos. No balcão ficava um latão de manteiga Papagaio, vendido a granel. Por trás do balcão, em local reservado, por conta do cheiro, um tambor de querosene Jacaré que era vendido em litro ou garrafa.

Nas prateleiras o sortimento era variado: doces de lata, leite em pó, Macarrão Jandaia, Óleo Benedito, Ki-Suco, Café São Luiz, Sabonetes Rossi, Lifebuoy e Eucalol, pastas Gessy e Signal, além de lápis, borrachas, envelopes e papel almaço.

Às tardinhas, não perdíamos “Jerônimo – o herói do sertão”, no rádio, enquanto os adultos assistiam ao “Repórter Esso”, nas televisões em preto e branco.

Nos domingos, pela manhã, a meninada com o cabelo “Glostorado” assistia ao seriado no Rex onde se trocava gibis (Tarzã, Roy Rogers, Capitão Marvel, Rin-Tin-Tin) na porta do antigo cinema da Cidade Alta.

Ainda sinto no ar o cheiro de “Lancaster” e “Vitess”, os meus perfumes preferidos na época.

 

 

 

Talco Ross

 

 

 

 

 



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